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E esse lance de poética no teatro hein?


Essa palavra poética cheira a declaração de intenções, baliza, busca, paradigmas.
No teatro ela torna-se cada vez mais necessária não só como ''escape'' acadêmico mas também para delinear que somos colegas ou até amigos, mas na hora da criação pelo menos nessa hora a diferença tem de aparecer de alguma forma.
Nesse cenário ''de tiro, porrada e bomba''  é fazer um pequeno furo na bolha ou minimamente ver através dela para delinear o limite de cada um e o que  pode suportar.
Ai entra essa palavra já enjoativa da poética.
Qual sua poética?  De vida? de luta? De respiração? De palco?
Gogol dizia que na arte a ideia era exibir a vida de corpo inteiro e não discutir argumentos.
É uma poética? Ou uma escalada para se através da montanha?

O ator, diretor e bailarino, Marcelo Ferreira, define poética como:   

''(...) uma Poética implica jogar luz sobre as motivações técnicas, estéticas, psicológicas e outras que criam as condições de possibilidade para a existência das obras, como são produzidas, o que expressam e o que provocam no público. 
A Poética representa as ideias do artista, o que pretende transmitir.''   (Grifo meu)

Desde já temos a noção  de motivação e de que tipo, para que obras existam, sua produção e sua recepção, como isso chega ao público, as suas ideias.

Então para Marcelo Ferreira teríamos em jogo o COMO são produzidas as obras a partir de     QUE motivações, e no palco são mais que motivações: nesse estágio são agora IMAGENS.
 
Mas voltando a vaca pastando:
 
O pós-dramático no teatro que antes se batia com pós-moderno e que venceu a luta do rótulo mais cool, tem uma poética levando em conta o termos discutidos acima.

Narração fragmentária, miscigenação e desterritorialização de linguagens, desmagnetização do textocentrismo, a fábula tem decepada a noção de sentido, síntese.
Calma adeptos da palavra, não quer dizer que não exista texto e nem possibilidades de junção com estéticas anteriores do teatro, a questão apenas é que e a palavra e tirada do pedestal de ser sempre o mais importante.
Basicamente o pós-dramático é um teatro de gesto e do movimento, mas isso é redutor cara, não se fie apenas nisso, é para você ter uma ideia da POÉTICA dele.
Começou a entender o lance?
Mas tem também a URGÊNCIA, é urgente falar sobre o que nos incomoda, é urgente dar a cara a tapa ou recolher a face como forma de urgência, o teatro pós-dramático é uma forma de urgência faço saber e declaro que. 
Daí também falar um pouco do espetáculo ''Um corpo que cai'' como um exemplo work in progress de poética. 
A CIA Teatro Urgente clama por essa urgência.
Dois dedos nos olhos e beijo na alma, taquicardia no coração para deslocar seu (im)pulso.
Eu ia dizer atravessamento, mas porquê? Urgência dá conta, e não dá mais para atravessar apenas, é hora de se ferir.
Poética né. Ou quase.
Implodir tudo no caldeirão das linguagens e produzir reflexão e conhecimento.
Outra questão importante é a pesquisa de genealogias de outras linguagens artísticas para montar esse corpus imagético narrativo, que mensagem chega e qual mensagem é entendida ou percebida no teatro pós-dramático?
Talvez nesse caso a percepção é o melhor entendimento pois as montagens desse tipo de encenação são um napalm.
No teatro pós-dramático pensa-se o tempo como uma fratura que une passado, presente e futuro, uma linguagem que é a pitonisa e a morte da pitonisa a faca e o beijo nos arautos do caos ou da ordem desordenada.
Essa poética expões e expande acontecimentos o que pode ser visto ou sentido como a corda que estica suas/nossas sensações ao limite.
Quando alguém dizer a você o batido jargão ''todos fazemos teatro'' sugira ao seu interlocutor educadamente  a partir de agora a frase ''todos fazemos teatralidade''.
De fato a teatralidade exacerbada é um ponto importante para se compreender melhor esse tipo de espetáculo.
Essa é outra palavra que dá pano para manga mas pensemos que a teatralidade funciona em montagens, espetáculos que não tem (ou estão fora do diálogo).
Pavis fala em ''pletora de empregos'' para conceituar teatralidade, um termo que gira entre o mítico, um conceito idealista etnocentrista''.
Vamos imaginar então que teatralidade e teatro pós-moderno andam de mãos dadas, mas o teatro textocentrista também tem teatralidade, e aí? 
Simplificando grosseiramente e absurdamente que a teatralidade é o oposto do teatro dito dramático.
Um exemplo de teatralidade seria numa montagem serem deixadas por exemplos o maquinário da luzes presentes, cicloramas manipuladas pelo ator, ou que este mesmo criasse um jogo de significação com elas.
Um exemplo simples mas que pode ajudar a melhorar o significado.
Então o pós-dramático tem a teatralidade como sua aliada.

Marcelo Ferreira ainda ressalta que:

''a prática pós-dramática, (...) frequentemente tende a se concentrar na relação do evento com os espectadores (e a relação entre os espectadores) como o material básico para a elaboração artística.
 
e ainda:

''A noção de dramaturgia do espectador aponta para esse desenvolvimento. 
O teatro está seguindo um movimento que já foi estabelecido nas artes visuais. 
Uma proposta de tempo e espaço expandidos. (...)''

Uma união de certa forma entre a performance e a instalação nas artes plásticas por exemplo.

Deleuze investigando as montagens do artista Carmelo Bene fala sobre um sentido de amputação que busca sensações não por acréscimo mas sim por extração, e que no lugar de um sistema de significações nasça uma prótese, que se instala, se coaduna, e tal procedimento tem parentesco com a plataforma de pensamento do pós-dramático:

''O homem de teatro não é mais um autor, ator ou encenador, ele é um operador.
 Por operação deve-se entender o movimento de subtração, de amputação,  mas já recoberto por um outro movimento, que faz nascer e proliferar algo de inesperado como numa prótese (...).

Nesse mesmo ensaio ele continua dizendo que em Ricardo iii: 

''Operando a subtração dos personagens de poder do Estado,  CB  -Carmelo Bene-  vai dar livre curso à constituição do homem de guerra em cena, com suas próteses, suas deformidades, suas excrescências, suas malformações, suas variações.''  

Dessa forma o ator e encenador italiano se filia em muitos aspectos ao que foi dito acima em especial no processo de prótese, de operação que anula procedimentos excessivamente comprometidos com um outro  tipo de teatro, o textual e que valoriza o papel do ator também em sua dimensão performática ampliando a paleta do pós-dramático.

Confira aqui Carmelo Bene, em ação em montagem de Ricardo iii (fragmento):

Obras que tem esse compromisso com a estética pós dramática podem ter os seguintes eixos formadores da sua POÉTICA:

-referências a obras de artes ou instalações recriados e re-significados;
-um potente trabalho corporal do ator/performer;
-um processo de operação/prótese do filme como linguagem para teatro: um exemplo no caso seria ''Vertigo'' (''Um corpo que cai'') de Hitchcock na montagem do TEATRO URGENTE;
-o mesmo caso de amputação e prótese ocorre com o texto ou outros elementos cênicos;
-pesquisa, criação e desterritorilização de linguagens;
-corpo do ator enquanto presença e acontecimento;
-os locais de encenação ''conversam'' com a natureza da dramaturgia pós-dramática;

Em tempo: Marcelo Ferreira, citado nesse texto é diretor de vários espetáculos da  CIA Teatro Urgente.

Foto do post:  evento com participação de Hans-Thies Lehmann, importante pensador do pós-dramático no teatro.

***

Fontes de pesquisa (Bibliografia):

FERREIRA, Marcelo,  A Poética do Teatro Urgente: no eixo do Teatro Pós-dramático: A Montagem de
“Um Corpo que Cai”  IN: ARRUDA, Rejane. Teatro & Humanidades. Simplíssimo Livros. Edição do Kindle. 

DELEUZE, Gilles. Sobre o teatro: Um manifesto de menos; O esgotado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2010.

''TEATRALIDADE''  IN: PAVIS, Patrice. Dicionário de teatro. 3.ed. São Paulo, Perspectiva, 2007.


Vídeos e Imagens de:

https://german.yale.edu/event/lecture-hans-thies-lehmann-postdramatic-and-dramatic-tragedy
https://www.youtube.com/watch?v=2PJVsPc58MQ











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