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Entre a exceção e a regra: notas de um ator vagabundo. Parte 1



Gostaria de partilhar algumas impressões sobre a ''A exceção e a regra''  -''Die Ausnahme Und Die Regel''- escrita por Brecht em 1930, 

O texto dito original consta de nove seções, prosa com prólogo e epílogo em verso e seis canções.

Jonh Willet no livro ''O teatro de Brecht'' chama-o de ''uma peça curta para escolas''.

A ação se passa na Mongólia entre 1900 e 1930.

Karl Langmann, um mercador, disputa uma concessão e com o fim de expandir seus negócios requisita  os serviços de uma espécie de carregador particular (um ''Coolie'',  forma pejorativa para trabalhador braçal usada naqueles tempos)e um guia para o ajudar no caminho e chegar a tempo de tomar posse da propriedade em Urga, capital da Mongólia, (hoje com o nome de Ulan Bator)  antes de outra caravana que vem ao seu encalço.

Ele se diz esperto, com disposição para vencer e munido de uma dureza no trato, em suma quase um empresário e empreendedor nato em alguns casos.

E assim constrangendo o guia a ''pressionar'' o carregador, insinua corpo mole dizendo que estão fazendo turismo as suas custas, mas que eles não fazem ideia disso pois o dinheiro não os pertence.

Mas ter andado metade do caminho gastando menos tempo foi importante apenas  até o momento em que percebe a aproximação da outra caravana, dai para frente transfere  a responsabilidade. 

O mercador  insinua  um possível parentesco entre eles, diz que o guia é ineficaz pois não cobre o trabalhador braçal de pancadas embora não lhe falte brutalidade, e afirma que ele se comporta assim porque é muito barato, fala sobre sabotagem diz que irá dar queixas e afirma também que se o guia não bater no carregador será mandado embora, e depois disso poderá ir na justiça cobrar o que lhe é devido.
Afirma que é contra violência mas orienta  que faça valer a exceção da regra.

O empregado diz ao guia que  pode bater  desde que não com muita força, no que é obedecido.

Isso não seria estranhável o bastante? Agir desse modo em defesa do agressor? Com a única condição que não fique fisicamente esgotado?

Talvez prevaleça o acordo implícito  de que dois podem se dar menos pior do que um.

 O que seria uma exceção ou uma regra no episódio a favor e/ou contra quem?

''Agora vamos contar
A história de uma viagem 
Feita por dois explorados e por um explorador.
Vejam bem o procedimento desta gente:
Estranhável, conquanto não pareça estranho
Difícil de explicar, embora tão comum
Difícil de entender, embora seja a regra.
Até o minimo gesto, simples na aparência,
Olhem desconfiados! Peguntem
Se é necessário, a começar do mais comum!
E, por favor, não achem natural 
O que acontece e torna a acontecer
Não se deve dizer que nada é natural! 
Numa época de confusão e sangue,
Desordem ordenada, arbítrio de propósito,
Humanidade desumanizada
Para que imutável não se considere 
Nada.''

Nessa perspectiva  as coisas  são no mínimo de se estranhar, pois a realidade é estranha.

As estranháveis seriam aquelas que poderiam ser normais mas não são?

A regra então seria tornar coisas como essas  ''difíceis de entender''.
A exceção é então justamente o mais sutil, o estranhável, pois não o vemos com facilidade nas relações sociais, pois só percebemos o mundo como estranho a nós.

Com isso o gesto no cotidiano seria ao mesmo tempo estranho e estranhável, cabendo ao ator levar essa proposta em seu trabalho.

Mas se o gesto parte de uma convenção, então poderíamos dizer que ele é um ou outro em cada momento do real.
B.B. deseja nos afirmar a estranheza e o absurdo do mundo cabendo observarmos o quão os seres criam contato entre si para sabermos o grau de ocultamento do insólito.

A  marcha da história seria um desenrolar de fatos em que como cientistas observaríamos e participaríamos como sujeitos e objetos, cobaias estranhando e sendo estranhos ao que ao nos cerca.
Se  existe real, existe algo a se estranhar. A realidade deve ser enxergada como estranhável, ou ''apenas'' estranha.

De modo que nada é natural.
Fatos que se repetem no tempo e espaço e apenas aparentando uma sensação de naturalidade retornam como uma farsa estranhável. 

Nessa época de ''confusão e sangue'' em que qualquer semelhança com a realidade será mesmo ''coincidência'', ''a humanidade desumanizada'', ''a desordem ordenada'', ''o arbítrio de propósito'' seriam causas ou sintomas de um mundo naturalizado na estranheza.


    Acima: encenação do texto de Brecht, ''A exceção e regra'' pela Cia. Estável de Teatro em São Paulo.
    O crédito da foto é de Jonatas Marques.



Assim a  primeira cena termina com uma song, artificio brilhante do teatro brechtiano que reforça a estranheza e a tomada de distanciamento do ator com a cena e com o estranhável comentário cantado de Longmann:


''Como eu não dormi no ponto, levei vantagem.
 Como eu não desanimei, vim mais ligeiro.
 Para trás ficam os fracos, o forte chega primeiro''   (Grifo nosso)


Acima: Trabalhador braçal por volta do ano de 1900.



Continuaremos a falar sobre a peça em outros posts, não percam!

(Em tempo: Caso tenha achado o texto interessante e queira citar, fique a vontade, apenas dê os créditos de autoria por gentileza). ***

Referências bibliográficas:

ANDRADE, Letícia, PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO PAULO. São Paulo. 2016. Cia. Estável de Teatro encena texto de Brecht. Disponível em: https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/noticias/?p=23584 acesso em 01/08/2020.

BRECHT, Bertold. Teatro completo em 12 volumes. 3. ed. São Paulo. Paz e Terra, 2014. 235 p. (Coleção Teatro, 4).

WIKIPEDIA. Enciclopédia on-line. acesso em 10/08/2020. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Coolie.

WIKIPEDIA. Enciclopédia on-line. acesso em 10/08/2020. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ul%C3%A3_Bator

WILLET, John. O teatro de Brecht. Rio de Janeiro: Zahar, [1967?]. 330 p.


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