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Andy Gill, Ecce Homo.

 


A COVID-19 tem feito estragos incalculáveis pelo mundo.

No Brasil infelizmente temos -até a publicação desse post- mais de cento e vinte mil vítimas, pessoas que poderiam e deveriam estar com seus familiares seguindo o curso das suas vidas e foram ceifados por uma epidemia tão brutal.

E pelo resto do mundo continuam os estragos feitos pela doença.

Entre personalidades que se foram nessa colheita do mal  tivemos o guitarrista da célebre Gang of Four, Andy Gill.

No comunicado sobre o falecimento do guitarrista o restante banda se pronunciou dizendo o seguinte:


“A última turnê de Andy, em novembro, foi a única maneira como ele poderia se despedir: com uma Stratocaster pendurada no pescoço, berrando com barulho dos amplificadores e ensurdecendo as pessoas na primeira fila”.

Nada poderia ser mais verdadeiro.

Numa reportagem  da finada  Bizz  há alguns anos atrás que trazia um dossiê sobre o papel social da música, tínhamos algumas das ideias do guitarrista sobre o assunto, lembrem-se que o Gang of Four era além de uma grande banda um verdadeiro tratado ambulante sobre política, alienação e outras ''miudezas''. 

Naquele momento prestes a tocar no Brasil o guitarrista num depoimento ao jornalista Alexandre Matias expôs um pouco do seu pensamento:

''Não queríamos soar panfletários, nem partidários. 

Não queríamos soar de esquerda ou de direita.''

''(...) John Lennon, que queria se comunicar com as pessoas, estava preso ao fato de ser um superastro.''


''Podemos fazer política o tempo todo, em qualquer hora ou lugar.''

''Em vez de fazer canções de amor, fazíamos canções de antiamor, o que é diferente de uma canção de ódio."                                             

(...) Apesar de entender a raiva do rock eu a acho ridícula."


Gill conta que começou a perceber que muitos dos artistas que admirava eram contestadores mas não exatamente políticos. 

O conceito da banda se centrava em discutir a política na vida, e não de forma separada desta, como se o que vivemos na rua ou na sala de nossa casa não fosse política por si só.

Havia (Há) um descompasso entre o mundo moderno e o microcosmo das relações sociais que não acompanharam o que havia mudado.

A Bizz  edição n.44  também colocou o álbum de estreia deles  ''Entertainment!..'' na sessão discoteca básica, os jornalistas Celso Pucci e Alex Antunes num texto sensacional escreveram sobre o disco e destacaram em especial a participação de Gill:   

Alguns trechos:

''Gill, o guitarrista, uma das promessas da década (não realizada desde que ele se afastou para tratar de um câncer), mantém-se nos acordes - ao contrário dos próximos discos da banda, onde predominariam riffs e notas musicais como "Natural's Not in It" e "Damaged Goods" (regravada), que, por incrível que pareça, resumem-se a dois acordes básicos de guitarra - todo o clima se baseia na dinâmica dos instrumentos. '' 

Aqui uma performance ao vivo de ''At home he feel like a tourist'', desse disco:


Ainda:
 
(...)
''Mas Gill também tinha outras cartas na manga (ou entre os dedos). Basta observar suas intervenções insólitas no (anti) funk "Not Great Men" ou o puro noise que encerra "Guns Before Butter", numa dissonância que também aparece em "Ether" e "Glass". No início de "Anthrax", parece que iremos escutar a versão de "Star Spangled Banner" de Jimi Hendrix, tal a brilhante manipulação do feedback.'' 
Confira ''Anthrax'' aqui:
 

Outra eterna favorita,  ''Damaged Gods'':

Certamente os sons desconjuntados e rítmicos da guitarra com acordes que combinavam silêncios e dissonâncias que explodiam em noise fizeram, fazem e farão escola.

No que ouvi a Gang Of Four pela primeira vez tudo começou a fazer sentido pois várias das criações que  bandas como Fugazi e U2 e outras estruturavam de forma tão criativa  eram herdadas das ideias de Gill para o instrumento.

E o Brasil não ficou imune a ''camarilha dos quatro: a Legião Urbana e principalmente a Plebe Rude (grande banda), a formação mais ''Gang Of Four'' do nosso país. 

Me lembro de quando adquiri via importação o CD deles, naquela época era assim meus caros: se você quisesse ouvir bons sons ainda não lançados no país, só assim e gastando muito do seu já fodido bolso.

Felizmente aquela época de trevas passou. Pelo menos em parte.

 Chapei com aqueles arranjos e aquelas guitarras: não houve jeito...nunca mais parei de ouvir ''Entertainment!...'', para mim  é um dos discos mais perfeitos já feitos no rock/pop em qualquer época. 

A Gang of Four já esteve três vezes no Brasil e Gill sempre se surpreendia com a popularidade e influência da banda por aqui.

Eles não pararam de trabalhar e vieram outros bons álbuns mas o primeiro realmente é uma paulada. 

E Gill tem grande participação nisso


Os grandes músicos se vão mas as grandes obras ficam.

Fontes de pesquisa para o post:


MATIAS, Alexandre. Política aplicada. Bizz, São Paulo, n. 205, p. 47-48, set. 2006.

PERSICO, Victor.  Andy Gill, fundador do Gang Of Four, morre aos 64 anos.  disponível    em: http://atdigital.com.br/blognroll/2020/02/andy-gill-fundador-do-gang-of-four-morre-aos- 64-anos/,  acesso em 17/08/2020.

SEELIG, Ricardo, Discoteca Básica Bizz #044: Gang of Four - Entertainment! (1979). disponível em  http://www.collectorsroom.com.br/2016/05/discoteca-basica-bizz-044-gang-of-four.html, acesso em 23/08/2020.

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